27 Fevereiro 2012

Sair à noite para dançar e só o fazer de dia

A rapariga estava sentada e a mini-saia fugia-lhe rumo à anca. A mão direita prendia o copo de cerveja, levava-o à boca. A esquerda agarrava o tecido preto, elástico, colado à coxa. A noite ia longa, o corpo estava cansado. O desconforto, esse, vinha de outras histórias.
Lá dentro, o estômago parecia cortado em pedaços. Uma tesoura pequena, pontas curvas, pouco ágil para quem quer separar superfícies moles. Minúsculos bocados escorregadios e húmidos balançavam para lá da barriga. Pior que soco. Era no coração que o maior incómodo dava saltos. Estava pequeno, escondido, um aperto só visto a olho nu, tal era a raridade.
Entre um trago e os seguintes, bate o copo na mesa de pé alto, e deixa o bar seguindo os passos do rapaz. Ultrapassa-o num ápice. A música fica para trás, no bar gasto, onde dançam os bêbados e os perdidos da noite. O frio da madrugada golpeia o corpo abatido. Aos dois.
Separados, já dentro do táxi, as palavras são poucas. Uma ou duas, num caminho que é longo. A distância entre os dois é maior que a estrada. A rapariga, sentada no lado esquerdo, olhar fixo na janela do mesmo lado. A rua passeia lá fora, ainda não clareou, mas ela não sabe disso. O vidro sujo do carro, apenas e só. O rapaz, no lado direito, pálpebras semi-fechadas, e pouco descanso nos olhos.
Em casa há uma espécie de discussão. O rapaz em monólogo rasteiro, depravado. A rapariga fuma um longo cigarro, pouco apetecido, na janela. As persianas estão abertas, o dia vai ser de sol.

Acorda às 14h sem ressaca. A cama está vazia no meio, os corpos nas pontas, costas com costas, joelhos para lados opostos. A tesoura volta a cortar. Lenta, excessiva. Como quem serra corda com lâmina para papel. Rasga os fios finos, demoradamente, enquanto os de dentro ficam indefesos.
O chão está frio. A rapariga calça os chinelos vermelho vivo, arrasta-os até à cozinha e liga a máquina de café. Amarga na boca. O rapaz sai do quarto, descalço, os pés arrastados. Não se falam. Os olhos não se tocam em nenhum instante e o peito está mais apertado. O de ambos.
No mesmo espaço, o tempo obriga a que se cruzem. As palavras cheiram menos a álcool e ainda são ásperas. O silêncio triste toma conta da casa inteira.
Só deu tempo para que a rapariga desse três passas sôfregas no cigarro, numa ânsia de o apagar. O fumo ainda lhe saia pela mão fora quando o rapaz se aproximou com um afago tímido na ponta dos dedos. Pedaços do estômago começam a juntar-se, e a tesoura estatela-se no chão antes da rapariga a estraçalhar com a planta do pé. O abraço é quente e demorado, o peito cresce em sorrisos e em aconchego. Não precisam de música para que a dança chegue, nem sequer de dar cadência aos passos. E venceriam, fosse qual fosse, o concurso de bailado.

12 Fevereiro 2012

12 Janeiro 2012

Pontos de vista

As pessoas julgam-me louca. E então porquê? Porque me despedi de um trabalho que já não me dá prazer, sem ter outro na manga, e viro as costas a uma empresa que faz jus à mediocridade - falamos de administrações e afins. Administração essa, que acha graça em brincar com a vida dos outros, feitos marionetas que respiram. Ora, mesmo saindo sem subsídio de desemprego, dada a minha louca decisão (e vá, a má vontade da empresa), algúem me explica em que é que estar sentada em frente a um monitor feita máquina, com um salário ofensivo e contratos semestrais é bom? Numa empresa que mudou muito nos últimos tempos, e não foi para melhor?
O que as pessoas que me perguntam isso não sabem - mesmo com o monstro da crise pronta para estracinhar qualquer um que se atreva a meter o pé na estrada - é que o carreirismo, meus queridos, é algo que não me assiste. Nem a resignação.  

04 Janeiro 2012

2012

o ano novo pede:

um trabalho novo - para me dar dinheiro e saudinha.
continuar sem fumar - também para me dar dinheiro e saudinha.
vontade de comer os dias.

é isto. Bom ano!

15 Dezembro 2011

Amigdalite vulcânica

Alguém veio parar ao burgo depois de pesquisar "amígdalas com crateras". Não são as minhas, que me foram roubadas aos 5 anos pelo médico da especialidade impronunciável. Na altura esperneei muito, vomitei sangue e gostei de me empanturrar de gelados. E até hoje não sabia para que tinha servido todo aquele circo. Obrigada senhor otorrinolaringologista por me arrancar bocados que pudessem vir a cuspir lava. E é isto.

Supreme Soul

O concerto de apresentação do novo cd é no Sábado no Auditório Carlos Paredes. É reservar depressinha porque parece que anda tudo ao mesmo.

01 Dezembro 2011

Os melhores palcos de Inverno

Para esquecer as emoções da crise, é meter as mãos no ar e dar um giro por aqui. Yehei!

22 Novembro 2011

O fio da vida

CD e DVD são lançados na segunda

A Montanha Mágica

Há uma cabala qualquer, que nunca entendi, contra o Rodrigo Leão. Fala-se no homem e é logo de ouvir cobras e lagartos sobre. O tuga tem sempre muito a dizer sobre aquilo que é bem feito, e no caso deste gajo, veste logo o fato elegante, e gratuito, da inveja.
"Tem a mania que é bom!";
"Faz sempre a mesma coisa";
"Os discos dele são uma seca e o gajo só se safa porque traz Madredeus na bagagem".
Ora, eu não consigo entender a coisa. Verdade. É por ser conhecido que lhe calha o infortúnio?
O homem teve o Sakamoto ou a Beth Gibbons a tocar com ele! O gajo faz coisas lindas, e eu nem sou de ouvir o género vezes sem conta. Mas gente, a "A Montanha Mágica" - o novo disco - está a tocar nos meus auscultadores e já estou rendida. Mete baixos, guitarras, coisas novas, e aconchegantes para o temporal que baila lá fora. E como se eu já não estivesse satisfeita, dei com a voz de Thiago Petiht na quarta música, Fio da Vida, e com Scott Matthew em Terrible Dawn.
É certo que não o vou ouvir em repeat dias e dias seguidos. Mas isso é só para não dar uma de gulosa e no fim me fartar. E se este cuidado não é bom sinal, não sei o que será.