A rapariga estava sentada e a mini-saia fugia-lhe rumo à anca. A mão direita prendia o copo de cerveja, levava-o à boca. A esquerda agarrava o tecido preto, elástico, colado à coxa. A noite ia longa, o corpo estava cansado. O desconforto, esse, vinha de outras histórias.
Lá dentro, o estômago parecia cortado em pedaços. Uma tesoura pequena, pontas curvas, pouco ágil para quem quer separar superfícies moles. Minúsculos bocados escorregadios e húmidos balançavam para lá da barriga. Pior que soco. Era no coração que o maior incómodo dava saltos. Estava pequeno, escondido, um aperto só visto a olho nu, tal era a raridade.
Entre um trago e os seguintes, bate o copo na mesa de pé alto, e deixa o bar seguindo os passos do rapaz. Ultrapassa-o num ápice. A música fica para trás, no bar gasto, onde dançam os bêbados e os perdidos da noite. O frio da madrugada golpeia o corpo abatido. Aos dois.
Separados, já dentro do táxi, as palavras são poucas. Uma ou duas, num caminho que é longo. A distância entre os dois é maior que a estrada. A rapariga, sentada no lado esquerdo, olhar fixo na janela do mesmo lado. A rua passeia lá fora, ainda não clareou, mas ela não sabe disso. O vidro sujo do carro, apenas e só. O rapaz, no lado direito, pálpebras semi-fechadas, e pouco descanso nos olhos.
Em casa há uma espécie de discussão. O rapaz em monólogo rasteiro, depravado. A rapariga fuma um longo cigarro, pouco apetecido, na janela. As persianas estão abertas, o dia vai ser de sol.
Acorda às 14h sem ressaca. A cama está vazia no meio, os corpos nas pontas, costas com costas, joelhos para lados opostos. A tesoura volta a cortar. Lenta, excessiva. Como quem serra corda com lâmina para papel. Rasga os fios finos, demoradamente, enquanto os de dentro ficam indefesos.
O chão está frio. A rapariga calça os chinelos vermelho vivo, arrasta-os até à cozinha e liga a máquina de café. Amarga na boca. O rapaz sai do quarto, descalço, os pés arrastados. Não se falam. Os olhos não se tocam em nenhum instante e o peito está mais apertado. O de ambos.
No mesmo espaço, o tempo obriga a que se cruzem. As palavras cheiram menos a álcool e ainda são ásperas. O silêncio triste toma conta da casa inteira.
Só deu tempo para que a rapariga desse três passas sôfregas no cigarro, numa ânsia de o apagar. O fumo ainda lhe saia pela mão fora quando o rapaz se aproximou com um afago tímido na ponta dos dedos. Pedaços do estômago começam a juntar-se, e a tesoura estatela-se no chão antes da rapariga a estraçalhar com a planta do pé. O abraço é quente e demorado, o peito cresce em sorrisos e em aconchego. Não precisam de música para que a dança chegue, nem sequer de dar cadência aos passos. E venceriam, fosse qual fosse, o concurso de bailado.
Lá dentro, o estômago parecia cortado em pedaços. Uma tesoura pequena, pontas curvas, pouco ágil para quem quer separar superfícies moles. Minúsculos bocados escorregadios e húmidos balançavam para lá da barriga. Pior que soco. Era no coração que o maior incómodo dava saltos. Estava pequeno, escondido, um aperto só visto a olho nu, tal era a raridade.
Entre um trago e os seguintes, bate o copo na mesa de pé alto, e deixa o bar seguindo os passos do rapaz. Ultrapassa-o num ápice. A música fica para trás, no bar gasto, onde dançam os bêbados e os perdidos da noite. O frio da madrugada golpeia o corpo abatido. Aos dois.
Separados, já dentro do táxi, as palavras são poucas. Uma ou duas, num caminho que é longo. A distância entre os dois é maior que a estrada. A rapariga, sentada no lado esquerdo, olhar fixo na janela do mesmo lado. A rua passeia lá fora, ainda não clareou, mas ela não sabe disso. O vidro sujo do carro, apenas e só. O rapaz, no lado direito, pálpebras semi-fechadas, e pouco descanso nos olhos.
Em casa há uma espécie de discussão. O rapaz em monólogo rasteiro, depravado. A rapariga fuma um longo cigarro, pouco apetecido, na janela. As persianas estão abertas, o dia vai ser de sol.
Acorda às 14h sem ressaca. A cama está vazia no meio, os corpos nas pontas, costas com costas, joelhos para lados opostos. A tesoura volta a cortar. Lenta, excessiva. Como quem serra corda com lâmina para papel. Rasga os fios finos, demoradamente, enquanto os de dentro ficam indefesos.
O chão está frio. A rapariga calça os chinelos vermelho vivo, arrasta-os até à cozinha e liga a máquina de café. Amarga na boca. O rapaz sai do quarto, descalço, os pés arrastados. Não se falam. Os olhos não se tocam em nenhum instante e o peito está mais apertado. O de ambos.
No mesmo espaço, o tempo obriga a que se cruzem. As palavras cheiram menos a álcool e ainda são ásperas. O silêncio triste toma conta da casa inteira.
Só deu tempo para que a rapariga desse três passas sôfregas no cigarro, numa ânsia de o apagar. O fumo ainda lhe saia pela mão fora quando o rapaz se aproximou com um afago tímido na ponta dos dedos. Pedaços do estômago começam a juntar-se, e a tesoura estatela-se no chão antes da rapariga a estraçalhar com a planta do pé. O abraço é quente e demorado, o peito cresce em sorrisos e em aconchego. Não precisam de música para que a dança chegue, nem sequer de dar cadência aos passos. E venceriam, fosse qual fosse, o concurso de bailado.
